Corações sujos

Antropologia Destaque História com Pipoca

Algumas vezes encontro pessoas que me dizem (geralmente após não conseguir maiores argumentos para continuar um debate), que cada um tem a “sua verdade”, como se um fato já ocorrido pudesse ser mudado ao sabor de suas crenças de que ele não aconteceu, ou aconteceu de outra forma, ou de uma forma melhor, segundo a concepção de melhor ou pior daquela pessoa.

Um fato ocorrido não pode mudar simplesmente pela crença ou vontade de que ele tenha sido diferente. Fato é fato! O que podemos fazer, e fazemos na maioria dos casos, é reunir novas provas para então, conjecturar novas teses pois, se não somos testemunhas oculares daquele fato, talvez o que saibamos dele não é de todo real. De posse destes novos elementos poderemos  esmiuçar novas possibilidades em busca de esclarecer a verdade, mas é impossível que cada pessoa tenha a “sua verdade” pessoal limitada. Tal conceito (das múltiplas verdades ou da verdade pessoal) é infundado e as vezes até perigoso.

Cartaz do Filme “Corações Sujos”
Cartaz do Filme “Corações Sujos”

O Filme Corações Sujos, dirigido por Vicente Amorim (o mesmo de Um homem bom e O Caminho das Nuvens), é baseado no livro homônimo do escritor, jornalista e contador de histórias Fernando Morais (Olga e Chatô, o Rei do Brasil) mostra a história da organização Shindo Renmei, fundada por imigrantes japoneses que ao final da segunda guerra mundial atuou, principalmente, no interior paulista. Tal organização não acreditava na derrota do Japão e rendição de seu imperador. Criando “sua própria verdade“, perseguia os seus compatriotas patrocinando terror e morte daqueles que aceitavam a realidade, por mais dura e humilhante que fosse.

Acomode-se no Sofá, está re-estreiando a coluna História com Pipoca.

Título Original: Corações Sujos
Gênero: Drama
Direção: Vicente Amorim
Roteiro: David França Mendes
Elenco: Celine Miyuki, Eduardo Moscovis, Eiji Okuda, Issamu Yazaki, Kimiko Yo, Shun Sugata, Takako Tokiwa, Tsuyoshi Ihar.
Duração: 115 min.
Ano: 2011
Nota do Professor: 7,5
Página no IMDB: http://www.imdb.com/title/tt1653653/?ref_=nv_sr_1

Sinopse (Adoro cinema): O tratado de rendição assinado pelo imperador japonês Hirohito ao general americano Douglas MacArthur marcou o fim da Segunda Guerra Mundial. Entretanto, no Brasil o anúncio não marcou o fim do período de violência. Os imigrantes japoneses que viviam no interior do estado de São Paulo, formando a maior colônia do país fora do Japão, se dividiram em dois grupos. Os que acreditavam na notícia eram chamados de traidores da pátria, apelidados de “corações sujos”, e perseguidos por aqueles que endeusavam o imperador e ainda acreditavam na vitória do Japão. É neste contexto que vive Takahashi (Tsuyoshi Ihara), dono de uma pequena loja de fotografia e casado com Miyuki (Takako Tokiwa), uma professora primária. Incitado pelo coronel Watanabe (Eiji Okuda), ele se torna o vingador daqueles que pregam a supremacia japonesa e passa a atacar todos aqueles que não acreditam que o país foi derrotado na guerra.

Trailer Oficial:

No filme, assim como no livro, a trama se baseia na história real da organização Shindo Renmei, que defendia a tese infundada de que  o Japão não havia perdido a Guerra mesmo com a apresentação uma rendição pública veiculada através das emissoras de rádio pelo próprio imperador Hiroíto. Para eles isso fazia parte de uma armação, propaganda ou conspiração do governo do Brasil em conluio com os EUA para enfraquecer o moral japonês.

O Brasil em Guerra
O Brasil em Guerra

As raízes do problema

Após a abolição da escravatura em 13 de maio de 1888 o Brasil chegou a uma encruzilhada: cada vez mais negros recém saídos do regime legal de exclusão entrava no regime social de exclusão. Não tinham trabalho, caiam na marginalidade e prostituição, enquanto a indústria recém nascida e as lavouras careciam de mão de obra. A “solução” encontrada pelo governo foi importar mão de obra estrangeira. No fim do século XIX e inicio do século XX iniciou-se então uma política imigratória. O governo dava grandes incentivos para que o trabalhador europeu e branco se estabelecesse no Brasil. A política de imigração, então, era na verdade um projeto “eugenista” de “embranquecimento da raça” que excluía cada vez mais os negros recém libertos.

Neste cenário, o Brasil então recebera milhares de imigrantes europeus e asiáticos, com destaque para Italianos, Alemães e Japoneses, estes últimos fixados principalmente em São Paulo e Paraná. Contudo a chegada ao país não fora realizada de forma harmônica: a diferença cultural foi sentida de ambos os lados, o brasileiro não entendia os hábitos japoneses e, assim, estereotipavam-nos:

“Seus hábitos, como tomar banho sentados no ofurô, a banheira circular de madeira, eram ridicularizados pelos brasileiros. Suas mulheres eram chamadas de ‘macacas’  pelas vizinhas, porque carregavam os bebês presos às costas. Homem que saísse na rua calçando o jikatabi – o sapato japonês em que o dedão do pé fica separado dos demais,  semelhante ao casco  de um animal – era imediatamente apelidade de ‘unha de vaca’” (MORAES, p.29).

Para além das diferenças culturais, a herança brasileira da escravidão fez com que os imigrantes fossem tratados como um novo tipo de escravo. Os japoneses viram, em pouco tempo, que a promessa um enriquecimento com a lavoura de café no Brasil era um engodo, ao invés disso encontraram uma situação de trabalho em que os contratos beiravam a extorsão ou a semi-escravidão.

“Desta feita, o ‘paraiso’ que haviam sonhado encontrar, rapidamente transformou-se no inferno do qual desejavam, o mais rápido possível, poder se livrar” (SILVA, p. 191).

Em meio a segunda guerra mundial, com o Japão aliando-se às potências do “eixo nazista” e a decisão do governo de Getúlio Vargas (após um breve namoro com Hitler), em janeiro de 1942 de se ajustar aos países do bloco aliado, o racismo da elite branca novamente foi posto à mesa, mas agora o alvo não mais eram os negros mas o “perigo amarelo”.

Com as relações diplomáticas oficialmente cessadas entre Brasil e os países que formavam o Eixo (Japão, Itália e Alemanha), o governo brasileiro transformou as colônias de imigrantes oriundos destes países em inimigos de guerra autorizando a perseguição a seus membros;

“Em 29 de janeiro de 1942, a Superintendência de Segurança Pública e Social do Estado de São Paulo, publicou uma portaria que iria ‘regulamentar a atividade de estrangeiros naturais dos países do Eixo’. A partir daí os japoneses foram proibidos de falar japonês em público, ensinar a língua a qualquer criança menor de quatorze anos, possuir rádio, automóvel, caminhão ou motocicleta; reunir-se em grupo de mais de três pessoas, disseminar qualquer escrito no idioma de origem, cantar ou tocar hinos em japonês, exibir a bandeira do Japão ou o retrato do imperador Hiroito. Procedeu-se ainda o fechamento de escolas, ao despejo de famílias inteiras de seus lares e o confisco (de dez a trinta por cento) de depósitos bancários a título de indenização ao governo brasileiro pelos prejuízos decorrentes das agressões feitas pelos países do Eixo” (MORAES, p.30-31 apud SILVA, p. 191).

Até as agremiações esportivas foram afetadas pela política de Vargas. O Caso paulista mais emblemático foi o do time de Futebol “Palestra Itália” que alterou seu nome para “Sociedade Esportiva Palmeiras” pois fora proibida as ligações de qualquer espécie com países que apoiavam o regime de Hitler.

Os imigrantes japoneses fixados em São Paulo (principalmente no interior do estado)  formavam (e ainda formam) a maior colônia japonesa fora do Japão,  que já sentiam-se órfãos de sua pátria e nutriam o desejo de deixar o Brasil, aliados ao forte nacionalismo e lealdade ao Imperador, não puderam aceitar tantas restrições, e é neste clima que os extremistas nascem…

O início da Violência

“Eram nove e meia da noite quando o baiano Edmundo Vieira de Sá, cabo da Força Pública Paulista (atual Polícia Militar) e comandante do destacamento de Tupã, chegou a casa de Koketsu, acompanhado de meia dúzia de praças. Conhecido na colônia pela truculência com que tratava os japoneses, Edmundo já chegou dando voz de prisão a quem via pela frente. Enquanto gritava e distribuía tapas aos atônitos convivas de Koketsu [que comemoravam o começo do ano 21 da Era de Showa], deu ordens para que fosse apreendido tudo o que pudesse ser considerado ‘prova do crime’: cadernos infantis escritos em japonês, livros escolares e até pequenos oratórios xintoístas. O cabo reservou para si a honra de capturar o troféu da expedição: a bandeira japonesa. Arrancou-a com violência do mastro improvisado e, ao passar pelo quintal, em direção ao caminhão onde os presos eram embarcados, ouviu os protestos de alguém que, em péssimo português, gritou: (…) ‘Não toque na bandeira japonesa! A Hinomaru é sagrada, não pode ser desonrada!’ (…) Diante de Edmundo, um mulato de quase um metro e oitenta de altura, o franzino Koketsu [dono dos gritos de protesto] parecia ainda menor. O Cabo tirou da cintura o cassetete de madeira  e aplicou no japonês  um violento golpe em cada ombro. Contorcendo-se no chão, Koketsu ouviu o policial mostrar, aos berros, que não estava ali para brincadeira: (…) ‘A bandeira é sagrada, é? Pois olha aqui o que eu faço com a sua bandeira, seu bode fedorento: limpo merda de vaca da minha bota” (MORAES, p.11-12 apud SILVA, p. 192). Grifos meus.

Hiromi Yamashita, Massakiti Taniguti, Massao Honke, Fumio Ueda, Taro Mushino, Tokuiti Hidaka e Kozunori Yoshida. (7 Samurais de Tupã)
Hiromi Yamashita, Massakiti Taniguti, Massao Honke, Fumio Ueda, Taro Mushino, Tokuiti Hidaka e Kozunori Yoshida. (7 Samurais de Tupã)

Essa ação ocasionou uma reação na colônia que, antes pacífica, gerou em seu seio elementos que, pela defesa moral de seus símbolos e pela desonra qual foram submetidos, decidiram dar o troco. Armados de Espadas Katanas e pedaços de madeira, paus e instrumentos de trabalho (facões, martelos, etc.) foram atrás do Cabo Edmundo. Não conseguiram consolidar seu intento, que era assassinar o policial, ao contrário, foram presos e depois de interrogados,  liberados para voltar à comunidade, onde foram recebidos como heróis. O grupo composto por Hiromi Yamashita, Massakiti Taniguti, Massao Honke, Fumio Ueda, Taro Mushino, Tokuiti Hidaka e Kozunori Yoshida ficou conhecido como os “sete samurais de Tupã“.

Para alegria do mundo ocidental, a Segunda Guerra chega ao fim em 1945, porém para alguns japoneses e descendentes no Brasil, ela estava apenas começando…

Shindô Renmei (Liga do Caminho dos Súditos) foi criada no início da década de 1940 em São Paulo e se espalhou pelo interior do Paraná. Tinha sede, originalmente no Bairro da Saúde, em São Paulo. Chegou a ter mais de 64 filiais e atuou de forma violenta principalmente no Interior do Estado.

Seus membros, não acreditando na derrota de seu país começaram, então, a expor a “sua verdade“. Jornais e revistas escritos em japonês, mesmo proibidos, passaram a circular clandestinamente divulgando a ideia de uma vitória japonesa; estações de rádio clandestinas foram colocadas no ar.

A colônia japonesa ficou divida entre os Kachigumi, ou “vitoristas”, aqueles que acreditavam na vitória do império japonês e os Makegumi, ou “derrotistas”, aqueles que aceitavam a rendição japonesa baseada nos fatos que chegavam do front.

“Alguns membros mais extremistas da organização, chamados de tokkotai, perseguiam os japoneses que acreditavam na derrota japonesa, os derrotistas ou corações sujos, e os matavam, como punição por traírem a pátria.

(…) Antes de fazer “justiça”, os tokkotai enviavam cartas para os makegumi (derrotistas), com orientações para que praticassem o seppuku (ou harakiri), o ritual japonês de suicídio que era feito para recuperar a honra pessoal ou manter o nome da família, ou então, caso se negassem, deveriam lavar a própria garganta para que não sujassem a katana (espada) dos tokkotai.”  (CARVALHO, 2012)

Mesmo com o aviso dado pelos tokkotai, nenhuma pessoa praticou o suicídio e então os extremistas iniciaram a matança. Primeiro em Bastos, cidade da Região de Tupã, onde o Makegumi Ikuta Mizobe foi assassinado com um tiro em março de 1946 (Os detalhes são contados pela própria filha de Mizobe na revista Made in Japan), e depois em abril do mesmo ano quando Chuzaburo Nomura, redator-chefe do antigo Nippak Shimbun e ex-secretário-geral da Sociedade de Difusão de Ensino aos Japoneses no Brasil foi assassinado num atentado promovido por integrantes da Shindo Renmei.

Do início de 1946 a 1947, segundo dados do DEOPS (que era a polícia secreta do Estado de São Paulo na época, e que tinha um caráter repressor, racista e anti-nipônico) foram causados pela Shinoô-Renmei, 23 mortes e mais de 140 feridos, todas as vítimas eram nipo-brasileiras que assumiam a derrota de seu país.

Talvez a vontade de vencer, seja um debate de botequim, um concurso, uma luta ou até uma guerra, faça florescer em cada um de nós uma “verdade” que apenas nós mesmos somos capazes de acreditar. Quando encontramos pessoas que, por ignorância ou razões pessoais, sociais ou psicológicas tendem a crer nesta “verdade” ela se torna mais e mais perigosa, tendemos a acreditar na teoria de Joseph Goebbels¹ segundo a qual “Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade” e  assim a propagamos na esperança que outros acreditem e repassem-na.

Mas a realidade é que não se forjam verdades, elas estão no mundo, prontas para serem encontradas e ao alcance de qualquer pessoa… se é necessária uma forja, então aquilo, com certeza, não é uma “verdade“, mas uma mentira que, mesmo repetida mil vezes nunca se tornará realidade.

Nota:

1 – Ministro da Propaganda da Alemanha Nazista entre 1933 e 1945 (1897-1945).

Referências:

MORAIS, Fernando – Corações sujos. A história da Shindo Renmei – São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

CARVALHO, Carlos – Resenha: Corações Sujos, 2012 – Disponível em: http://setimacena.com/colunas/leituras/coracoes-sujos/ – Acesso em 03/12/2013

SILVA, Rosa Maria Ferreira da. Cadernos de Pesquisa do CDHIS – n.36/37, ano 20, 2007 – Universidade Federal de Uberlândia. disponível em: http://www.seer.ufu.br/index.php/cdhis/article/viewFile/1214/1081 – Acesso em 04/12/2013

Para saber mais sobre a Verdade Alterada:

Revista História Viva – Realidade alterada: o poder da Shindo Renmei 

 


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