Sobre a Ética #2

Antropologia Destaque
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Apenas e tão somente a vida humana é pautada fundamentalmente pela ética. Os conceitos de “bom” ou “mal”, “certo” ou “errado” aplica-se apenas aos seres humanos. O leão que ataca a gazela, o faz pela luta pela sobrevivência, não por sentimentos de maldade ou violência, assim como, quando plenamente saciado deita-se na relva e observa os rebanhos pastando sem agredi-los, não está sendo benevolente com a presa. Os animais não fazem escolhas. Vivem à mercê de seus instintos.

Os seres humanos, ao contrário dos outros animais, são livres para escolher suas ações e ponderar sobre suas consequências futuras, e “diante da multiplicidade de caminhos postos a nossa disposição, avaliamos os meios e os fins e, considerando apropriados ou prudentes, escolhemos. ” ¹

Portanto não há exercício de ética se não há liberdade de escolhas, nem tampouco se não há valores a avaliarmos para que atinjamos tantos os meios como os fins. É na escolha livre que podemos avaliar e, consequentemente, valorar, os fins e os meios para obter a consciência do que é preferido a este ou aquele indivíduo, ou entidade.

Porém, e paradoxalmente a isto, a cada dia, os valores humanos transformam-se e até dissolvem-se. Os valores que mais se impõem na atualidade, são aqueles de caráter individualista, utilitário, imediatista. Como então aspirar um esforço coletivo para que vivamos bem, se o maior valor de uma sociedade, de uma empresa, ou de um indivíduo, é justamente aquele que fere o todo para o ganho de um? Como, então, aspirar um conceito, uma ideia, uma ação que não se serve de problemas pontuais ou temporais, se as ações são aquelas imediatistas e que tem o valor da utilidade como a medida de todas as coisas?

As relações profissionais, em especial as de trabalho, são as que mais se valem, muitas vezes impulsionadas e encorajadas pelos próprios “líderes” deste método individualista e imediatista. Tudo é “pra ontem”, tudo é urgente, sempre fazendo mais com menos.

Este modelo de trabalho individualista, apesar de estar tão presente na sociedade atual, não é algo novo, ao contrário, nasceu há mais de 200 anos, no auge da revolução industrial, que criou hierarquias, processos e controles objetivando, unicamente, o resultado. Este modelo, totalmente focado nos processos que levam ao resultado, foi usado (e ainda é em alguns casos) até as décadas de 1970 e 1980, como modelo que definiu o chamado “sucesso profissional”. As antigas, porém, fortes tendências gerenciais de competitividade, concorrência e individualização, que antes eram estimuladas em excesso, criando um exército de “perdedores” por um lado, em oposição aos poucos “vencedores” de outro, criavam um abismo entre dois mundos cada dia mais distantes.

O indivíduo como meio, o indivíduo como fim

Em paralelo a este padrão de gerenciamento, os valores pessoais iam sobrepondo aos coletivos. O indivíduo, então, era “o meio” pelo qual ao poder econômico se utilizava para chegar aos seus objetivos de produção de bens de consumo e acúmulo do capital.

Porém, as novas realidades como o aumento da expectativa de vida, principalmente no hemisfério norte, e o entendimento de que o indivíduo, como profissional e em especial, como ser inteiro, e não como apenas parte fracionada, é o verdadeiro objetivo de todos os processos produtivos, foram desmistificando o conceito de indivíduo coisificado. Nascia, então, uma geração de profissionais insatisfeitos com suas carreiras e com aquilo que o modelo coisificado de gestão os ofereciam.

A ideia nascida nos Estados Unidos de se criar um movimento de ética nos negócios e nas empresas, se desenvolve contundentemente nos anos 1990. Esta ideia ganha força quando empresas com pouca, ou nenhuma responsabilidade social, ambiental ou notadamente excludentes, são boicotadas e seus produtos são objetos de propagandas negativas veiculadas por ONGs e setores socialmente engajados da sociedade. Estas ONGs ganham notoriedade mundial ao discutir, não apenas os valores econômicos, mas os valores de utilidade social de um negócio ou empresa para o bem-estar de toda a sociedade, num momento, como já fora dito, em que o valor econômico se desenvolve antagonicamente ao valor social e ético.

Uma das “armas” usadas para suplantar o modelo de gerenciamento engessados e focado unicamente nos resultados, foi a criação de modelos de trabalhos que atendem as expectativas de socialização do trabalho, ou seja, a inclusão social dos colaboradores não se dá por meio da competitividade, mas, ao contrário, pela observação de suas facilidades e limitações, aliada a práticas de bem-estar do funcionário e da sociedade ao qual a empresa participa.

Como bem exemplificou Sidnei Oliveira, autor dos livros da série “Geração Y” para a exame.com

Estamos no tempo do trabalho colaborativo, caracterizado pelo compartilhamento de ideias e informações entre os membros de um grupo com o intuito de alcançar resultados ligados a uma meta comum. Isso tornou-se possível quando os sistemas de comunicação e as bases de informações fizeram-se acessíveis a todos os profissionais, como acontece atualmente nas redes sociais.

Em sistemas colaborativos, o compartilhamento de recursos é tão natural quanto a espontânea coordenação dos esforços de trabalho. Nesse modelo, os papéis individuais e os processos são apenas a referência para a organização das atividades. O objetivo é proporcionar o trabalho em conjunto de maneira fluída e eficaz, por meio de esforços intensos de comunicação, permitindo a negociação mais eficiente em direção a um propósito. Nesse modelo, a coordenação das atividades é negociada e compartilhada entre os membros e estes passam a comunicar, negociar e tomar decisões referentes às tarefas.

Profissionais que realizam o trabalho colaborativo são desafiados a se desapegar de suas posições hierárquicas e focarem diretamente no propósito, buscando a motivação de todos os membros do grupo. Nesse sistema, a comunicação exige padrões flexíveis que promovam a inovação nos processos com a consequente ampliação dos resultados.² ”

As mudanças em direção de uma empresa que preza valores realmente éticos são pautadas pela ação de seus empreendedores. Sem estas ações, que vem de dentro como hábito cotidiano, estes valores ficam, muitas vezes, apenas pendurados e emoldurados num canto qualquer da sala de reunião, ou numa seção, nunca visitada do seu site institucional. Os seres humanos, ao contrário dos outros animais, são livres para escolher suas ações e ponderar sobre suas consequências futuras… faça a escolha certa.

 


1 – ALVES, Alaôr Caffé. Fundamentos da Ética – Revista da Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo, 2003.

2 – OLIVEIRA, Sidnei. A nova era da gestão – parte 3 – Trabalho Colaborativo disponível em http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/sidnei-oliveira/2014/05/05/a-nova-era-da-gestao-parte-3-trabalho-colaborativo/ (acessado em 07/05/2016).

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