Soltem Barrabás

Destaque Filosofia

Réquiem ætérnam dona eis, Dómine
Et lux perpétua lúceat eis
Riquiéscant in pace.
Amen*

João afastou a cortina lentamente, com a preguiça típica daqueles que trocam noite por dia, acordados que ficam nela e mal dormidos que ficam nele. Olhou pela janela e lá fora, viu o céu cor-de-rosa, num sol que vai dormindo e afundando no horizonte deixando como pistas, nestes movimentos e cores, que a noite que vem chegando cheira a primavera nova. E oxalá não venha o físico ou o astrônomo dizer que o sol não cai nem se move, mas sim a Terra é quem gira e nós, presos nela estando, sentimos estas falsas impressões de que o sol nasce e se põe, enterrando assim, com o ceticismo peculiar dos que se interessam e vivem para nos esclarecer da verdade, a poesia do momento e a beleza do quadro agora pintado.

– A noite é linda – pensou.

Porém, neste momento, de súbito, subiu-lhe à boca aquele gosto amargo que nestas épocas de vésperas de um trabalho novo, lhe persegue e não o deixa esquecer-se da doença. Até hoje ainda não procurou um médico para saber se doença é do físico, que já não suporta carregar o fardo da angústia, ou da mente que já não sabe se vive realidade ou sonho. O fato é que não se sentia bem, mas não podia deixar de terminar seu trabalho. Escolha sua, sina sua.

Há um ditado popular que diz que a vida é feita de escolhas e outro que nos informa que a voz do povo é a voz de Deus, e sendo de Deus a voz das multidões, esta voz e estes ditos não podem enganar-se, visto que Ele tudo sabe, tudo pode, e tudo vê. Sendo feito por si e de si, Deus escolheu como matéria prima de sua forja divina apenas o que havia de melhor em seu tempo e assim, antes d’Ele mesmo existir, Se fez Onipresente. Antes d’Ele mesmo se conhecer, Se fez Onisciente e antes d’Ele mesmo criar-se a si mesmo, Se fez Onipotente. Sua voz é tão perfeita que foi dela que tudo de fez e se criou. Que haja luz, disse ele, e luz houve. Como, então, poderia essa sublime e poderosa voz enganar-se?

Se for verdade o que diz a onipotente e onipresente voz do povo, não podemos negar nem duvidar que, ditado correto, a vida seja feita de escolhas, portanto João não pode ser culpado pela escolha que fez. Culpe-se, então, a escolha feita, a vida que leva, o povo que fala ou o Deus que, mesmo em tudo mandando e de todos sabendo, não deixou o mapa da vida para fazerem-se as escolhas que a vida nos exige e os caminho que Ele, em sua sempre perfeita sabedoria, nos mete à frente, caminhos estes que retos não o são, mas cheios de esquinas, cruzamentos e bifurcações. Talvez Ele se esqueça de que humanos imperfeitos somos, e não podemos e não temos a destreza necessária para seguir retos em caminhos tortuosos e que, por mais que nos esforçamos para ficar em pé, caímos e nos machucamos ao trilhá-los sem mapa, sem destino.

O fato é que uma simples escolha feita num momento rápido, por impulso, ou, ao contrário, com vagar e repensada, muda vidas, fatos, mundos. Não podemos, então, afirmar, talvez por falta de conhecimento ou, mais ainda, por falta de imparcialidade, leitor e observador de vidas alheias que somos, que a escolha de viver a vida como vive João, o fez por vontade própria; antes, se fosse possível melhor conhecê-lo, diríamos que foi empurrado a escolher a indigna vida de matar à dinheiro e assim, receber seu pão e sua vida diária justamente quando retira a mesma vida, não a sua, claro está, mas a alheia.

Escolhas que vem ao escolhedor como alternativa única quando se dobra uma esquina errada nesta vida sem mapa, são na verdade mais falta de escolhas que propriamente uma escolha. Mas aqui não se fala simplesmente de escolhas, antes, falamos de vidas e das vidas que escolhemos para nós mesmo e para todas as outras pessoas que de nossa vida, por escolha ou falta dela, se ocupam ou por ela passam mesmo que ligeiramente.

Talvez tenha sido este o sentimento de certo Galileu de nascimento que numa sexta-feira antes da páscoa viu e ouviu os judeus que – embora povo seu, estranhos lhe pareciam – aos berros, escolherem arremessar-lhe a um martírio na cruz. Não importou, àquele povo, que o nazareno ali já humilhado, nu e espancado, fosse pendurado e trespassado até que os ossos, não aguentando o peso do corpo e do sofrimento, cedessem para finalmente sufocar o Homem que filho do Homem era. Ninguém, apesar da bondade, pacifismo e honestidade, poupou aquele jovem Galileu de seu amargo cálice, que fora servido com sangue ao cume do Gólgota, ao contrário, seu povo de igual fé e procedência escolheu, naquela sexta-feira, o ladrão, o desonesto, o ímpio.

A Voz do Povo, sendo a voz Divina, clamou a Pilatos: “Solte Barrabás”. “Não acho culpa alguma neste homem”. Disse finalmente Pilatos aos presentes.

“Haveis-me apresentado este homem como pervertedor do povo; e eis que, examinando-o na vossa presença, nenhuma culpa, das de que o acusais, acho neste homem. Nem mesmo Herodes achou culpa, porque a ele vos remeti, e eis que não tem feito coisa alguma digna de morte. Castigá-lo-ei, pois, e soltá-lo-ei”. Mas novamente a voz de Deus, do povo sendo, clamou: “Solte Barrabás”.

– “O que faço com este então?” Perguntou o Governador. “Crucifica-o”, se fez ouvir a voz do povo.

Novamente, então, absolveremos o povo e culparemos o Criador, verdadeiro emissor das palavras, por soltar este e pendurar aquele. A verdade, como disse uma vez um sábio escritor português[1], é que a ordem que dera o Criador, no começo do mundo, de crescer e multiplicar só fora dada após Caim matar seu bom irmão Abel, razão esta de estar hoje o mundo com tantos filhos e netos e netos dos netos do primeiro e tão poucos descendentes do segundo.

Mas ainda, e apesar de tudo – vida acabada e destino que só a Deus pertence que dono do mundo e de tudo que nele está O é – João não perdeu a fé nas sempre boas e bem-vindas ajudas de Nosso Senhor Jesus Cristo que, embora não se dê ao trabalho de aparecer de quando em quando, como faz vez ou outra vossa mãe a garotinhos e garotinhas para provar sua altivez e santidade – que o tempo e os costumes fazem se perder no esquecimento das gentes. Sendo Ele filho do Homem como é e se proclama, não precisa destas pequenezas, nem das provas nem das aparições, para garantir a fé e os joelhos esfolados que lhe são tantas vezes ofertados pelos seus irmãos e irmãs que sabem que apenas assim, com tais gestos e humilhações, somadas às preces e a vida de privações, que poderão ser recebidos por Ele nas alturas que o Pai lhe fez habitar. E que fique claro que não desce de lá outra vez sob nenhuma circunstância ou pretexto para juntar-se aos mortais e contaminar-se com o pecado, pois já o fez uma vez e pendurado e perfurado fora por eles. Escaldado, medo de água fica.

Sempre, e apesar das distâncias que separam a Terra do Céu, está lá Ele a ver quem mais se ajoelha e suplica em sua sempre misericordiosa e divina intenção, para depois lhes compensar com Suas ajudas e obras nem sempre compreendidas pela pequenez do intelecto destes irmãos e irmãs que nem céu, para descansar na eternidade, nem terra, para suar e trabalhar conforme lhes foi prometido por Ele próprio, possuem.

João, então, abriu a gaveta e como bom cristão que é, crente e temente ao bom e misericordioso Deus, retirou de lá sua bíblia sempre inspiradora, pois se Deus não deixou o mapa da vida, uns povos deste lado do mundo, incluindo o povo do qual João descende, acreditam que Ele tem deixado algumas pistas em seu livro que, desconsiderando todos os outros livros sagrados que existem neste e no outro lado do mundo, é o único inspirado por Ele. Passou delicadamente seus dedos sob a capa, fechou os olhos e sentiu na escuridão, sua alma elevar-se num encontro com o sagrado. Numa prece, pediu proteção e inspiração e devagar, como se o tempo estivesse parado, abriu o livro aleatoriamente no local onde os dedos polegares haviam deslizado.

Sendo janelas da alma ou a porta do coração como diz a sempre divina sabedoria popular, os olhos de João só poderiam enxergar a sublime presença do Criador nas palavras que lera:

“e o senhor nosso Deus no-lo entregou, e o ferimos a ele, e a seus filhos, e a todo o seu povo”.[2]

Era certo. Deus não o deixaria na mão. Não neste momento. Não quando, novamente, o gosto amargo lhe subia à boca e a náusea, mais forte, fazia sua visão turvar-se impedindo de ir além.

Sentou-se na cama. As mãos firmes seguravam a bíblia como ela fosse sua única salvação. Olhou novamente o texto e continuou sua leitura:

“Também naquele tempo lhe tomamos todas as cidades, e fizemos perecer a todos, homens, mulheres e pequeninos, não deixando sobrevivente algum.” [3]

Aliviado, pelo bom conselho das sagradas escrituras, enxugou o rosto suado, abriu a gaveta e guardou o livro. Na parte superior do móvel tateou, e com as pontas dos dedos pegou a pistola que havia comprado de um moleque pelo preço de mais ou menos duas pedras de crack. Antes de ajoelhar-se para a rotineira prece de proteção, encheu um copo com água e engoliu um remédio para sanar o desconforto da doença.

Mais determinado, orou pela sua vida. Por um instante pensou se sua prece protegeria apenas sua vida ou também a vida de quem agora seria sua vítima. Balançou a cabeça como se isso fosse livrá-lo dos maus pensamentos. Deus não o deixaria, ele tinha certeza que Cristo estava a lhe proteger.

Conferiu o pente da pistola e a meteu na cintura, ergueu as mãos para o céu e implorou perdão. Estava pronto para mais um dia de trabalho.

 

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[1] José Saramago. Escritor Português vencedor do Prêmio Nobel de Literatura. Várias de suas obras questionam a bondade ou mesmo a existência de um Deus, dentre elas “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, “Memorial do Convento” e “Caim”.

[2] Deuteronômio 2:33.

[3] Deuteronômio 2:34

* Requiém

“Dai-lhes, Senhor, o descanso eterno
E a luz perpétua os ilumine
Descansem em paz.
Amém.”

 

 

 

 

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